quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Sede de Mundo





                                   De volta à fonte. Haapiti, Polinésia Francesa


 A pequena canoa a motor foi lentamente se aproximando do point, aproveitando o intervalo entre as séries. Então, do profundo azul do Oceano Pacífico, por uma brecha na gigantesca barreira de corais que circunda a ilha, uma esquerda cristalina entrou contornando e despejando um tubo sobre o arrecife, um local de SUP deslizando em plena sintonia com a onda.
E eu – depois de uma travessia de 10 mil km e não querendo outra coisa que não fosse mergulhar de uma vez naquelas águas transparentes – fiz menção de já ir colocando o leash e pulando no mar dali mesmo. Mas o guia disse: “Watch”.

Obedeci. Afinal, por mais ‘dreamin’ que parecesse aquela arrebentação, ainda era fundo de coral, pedra bruta. Lembrei de que já fazia cinco meses que eu não surfava.  Puxei a cyber-shot e fiquei os próximos 10 minutos apenas fotografando e contemplando.
Era setembro, temporada dos swells de sul nas Ilhas Sociedade. E, ali, realizando um de meus maiores sonhos, eu estava prestes a surfar Haapiti, na costa sudoeste de Moorea. Como de costume, sozinho. E como não poderia deixar de ser, novamente com meus dois longboards vermelhos – minhas quads velhas-de-guerra já testadas e aprovadas em Sandino, Chicama, Restaurants e Cloudbreak.

Ao contrário das outras trips, que haviam rolado com astral de pura aventura e diversão, nesta eu experimentava uma sensação diferente – uma certa ansiedade. O fato era que, aos 37, eu já começava a pensar na crise dos 40 – no balanço que fazemos no meio da vida entre todos aqueles sonhos acalentados desde a infância e a realidade de quem nós afinal nos tornamos. Quanto mais se me aproximava a quarta década, mais eu começara a sentir um certo temor, um medo de um dia ser despertado de repente por um tremendo arrepio de consciência, e então me ver num bar sujo esperando mais um aperitivo enquanto tantas aspirações continuavam não realizadas, sem sequer uma resposta. Eu não queria chegar na metade do caminho simplesmente dizendo, por exemplo, que tal realização tinha sido “o meu Everest”. Não. Eu queria chegar lá sabendo se o Himalaia era importante para mim, e se fosse, o que eu havia feito a respeito. Eu precisava mesmo ir um pouco longe para pensar.
E se havia um lugar no planeta que eu realmente desejava era a Polinésia Francesa. Aquela inacreditável paleta azul no oceano... as lindas mulheres de cabelos negros... aquela pureza no semblante... os tubos perfeitos... toda aquela mística de paraíso me atraíam há muito tempo. Então, eu estava mesmo de olho na oportunidade – quando esta surgiu, eu fechei a trip em uma tarde, digitando em meu notebook no conforto da minha casa.  Sabe a sensação de estar com um bilhete premiado e não acreditar que é seu? Mesmo com tudo garantido, eu só fui cair na real com o rugido do avião em Floripa.

Finalmente, então... o Tahiti?! Sim, eu me sentia mais aliviado. Porém, lá no fundo, alguma coisa ainda me incomodava.
Mas eu entendia aquela inquietação. O fato era que mesmo já tendo feito algumas boas viagens pelo Brasil, eu só começara a viajar pra fora do país no começo dos 30, o que eu considerava tarde, e acabara ficando com uma sensação de tempo perdido. O caminho era longo, bem longo, e eu estava mesmo precisando fazer um balanço dos últimos anos. Assim, me pus a recordar: a primeira surftrip com os amigos, para o norte do Peru. Esquerdas de cansar as pernas em Lobitos. Depois, América Central, onde peguei o tubo da vida e percebi que dava para mim. Aquela volta pelo Caribe panamenho, sem condições físicas para surfar, na verdade caminhando com dificuldade devido a uma severa lesão no quadril, mas uma viagem importantíssima para provar a mim próprio que a mente era teimosa e continuava mandando no corpo. Depois, meu primeiro voo solo para fora, aquele cut-back inesquecível no deserto. A barca eterna para Tavarua.  A volta para Malabrigo, já me sentindo em casa, em abril de 2016. E agora, e finalmente, o Tahiti.

 Mas o passar dos anos não era só o que me inquietava. O próprio surf ocupava um espaço cada vez menor em minha vida, e eu não sabia exatamente o porquê. Talvez a chegada à idade adulta e sua inevitável mudança de prioridades, ambições profissionais, contas a pagar; talvez a água gelada e o frio, que meu corpo já não suportava como aos vinte anos, o fato é que eu agora passava meses fora d’água sem sentir falta. Não pude deixar de lembrar da vez em que, após voltar de uma dessas viagens, comentei brincando com um amigo que preferia surfar duas vezes por ano nas melhores ondas do mundo do que cair toda semana em ondas de meio metro reformando na praia perto da minha casa. Agora, por mais surreal que fosse, eu me via cumprindo a minha própria profecia.
Como tantas vezes acontece, a realidade nunca sai de acordo com os nossos planos. Para começar, as conexões entre Florianópolis e Papeete (um trecho de 40 horas) eram simplesmente terríveis – foi, de longe, a pior viagem de ida que tive até hoje. Depois, a pousada. Era segura, de frente para o mar, e com um café da manhã servido; se você surfasse, o dono te levava de barco para dois picos de surf próximos – mas nada muito além disso. Não havia ar-condicionado, o banheiro era compartilhado e o wi-fi era definitivamente uma porcaria. Eu não posso reclamar do proprietário, que me levou até ao médico quando vaquei e pensei ter estourado o tímpano, mas percebi que ter que cuidar de tudo sozinho – buscar os hóspedes no terminal do ferry, fazer o supermercado, preparar o café da manhã, limpar os banheiros, regar o jardim, cuidar da filha, me levar para surfar – deixava a reserva de paciência dele meio que no limite. Eu até entendo, mas não concordo – e ver o seu próprio anfitrião estressado e gritando com você pela barreira da língua e pelo fato de você estar sem seu aparelho de audição no ouvido inflamado foi uma experiência que nunca esperei ter, e nem quero repetir – ainda mais no Tahiti.

De todo modo, como surfista viajante, eu não podia me queixar. Para começar, o oceano – o que eu havia feito para merecer todo aquele azul-turquesa? O visual das montanhas, aguilhões apontando para os céus em meio às brumas; o clima em constante mutação; e as vagas, sempre a arrebentar ao longe com assustadora beleza no anel de coral – o Tahiti é um lugar dramático. E agora, em meio aquele cenário, eu me preparava para a minha primeira sessão na Polinésia.
Fui sem pressa, curtindo o momento. De onde eu estava, bem no meio do passe no recife, um canal seguro de onde podia ver uma esquerda de um lado, e à minha direita, uma onda quebrando nesta mesma direção. Paro de remar. Olho para as escarpas ao longe. Bom Deus, eu estou aqui mesmo?
Vou sentindo e entrando na vibe, decifrando o crowd. Um local de SUP sorri e acena. Aceno de volta e sorrio também. Fiquei sabendo que lá é costume apertar a mão dos outros surfistas no outside, então cheguei prestando bastante atenção nisso, mas como não vejo ninguém fazendo, fico na minha. Do nada, sobra uma para mim. Remo, a galera vira para ver, dropo e vou costurando. A onda acaba, saio e deixo a corrente me trazer de volta, devagar. Já falei que é para esses momentos que eu vivo? Esquerdas perfeitas, água agradável e um canal que parece moldado pelas mãos de Deus. Trabalhei e economizei meses por este momento, não me belisque, faz favor.  De repente, percebo um vulto do meu lado, me viro e...  é um cara estendendo a mão!

Caramba, então era verdade?! Isso nunca aconteceu antes, um completo desconhecido vir até mim apenas para me cumprimentar? Surfista, quando se aproxima muito de outro que não conhece, normalmente é para rabear, olhar feio ou xingar. Um tanto surpreso, retribuo o comprimento com um tímido “Hi!”.
Fico feliz, claro, mas continuo ligado.  Imagine, surfar em fundo de coral... Já falei que o guia está surfando também... de capacete? Então, nada de baixar a guarda aqui.  E depois, já notei que tem uns fominhas também. Claro que são os mais sérios, que novidade. É sempre assim, quanto mais adesivos no deck e ondas pegas por minuto, mais amarrados ficam os semblantes dos caras. Esqueça suas fantasias com os Mares do Sul, aqui também tem disso. Merda, olha o doido vindo ali! Rápido, larga essa prancha, respira, mergulha e... Anotou a placa? O cara veio manobrando e despencou com a quilha a um centímetro da minha cabeça! Meu, o que eu estava pensando? Essa foi por pouco...
Moorea é considerada ilha-irmã do Tahiti e é verde, absolutamente verde; basicamente, um imenso jardim. Pude observar com atenção o estilo de vida deles; é de uma simplicidade encantadora. Mas que, claro, faz todo o sentido. Afinal, quando você vive isolado num rochedo no meio do mar, o que fazer? Exatamente, vive-se de acordo com o que a Natureza oferece! Peixe, coco, abacaxi, manga... Fruta-pão... Flores... Pérolas...  Claro que eles já estão tão conectados quanto qualquer um de nós, mas por um breve momento, eu tive um vislumbre de como é a vida humana em seu estado natural – e, em contraste, do quão fajuto se tornou, em tantos aspectos, o nosso aclamado estilo de vida “moderno”. Fiquei pensando de como já estamos tão imersos na loucura, na verdade, que, sem mais nem perceber, acabamos a enaltecendo, como quando exaltamos restaurantes capazes de cobrar fortunas por pratos mirabolantes – centenas de dólares por uma refeição. Você acredita que existe um, que tem não sei quantas estrelas no guia Michelin, famoso por preparar uma sobremesa temperada com ouro em pó? Ouro em pó! Impossível ficar indiferente com um disparate desses, fingir que não é conosco. Claro que é.  São nossos valores, esta insana cultura de plástico que nós mesmos criamos. Por um momento, senti mesmo vergonha por já ter precisado ir ao médico e nutricionista para saber o que devo comer. Que prova maior do quão processada se tornou minha alimentação... Mas acho que o que mais me surpreendeu foi o hábito que todos eles – homens e mulheres, velhos, jovens e crianças... têm de andar com uma flor na orelha. Sim, uma flor. Vão ao supermercado... Passear... Trabalhar... Brincar... Imagine a cena: um homem adulto em pleno século XXI caminhando tranquilamente na rua com a família, a cabeça adornada com uma flor! Parece factível? Para um americano ou europeu, algo impossível de se compreender. Mas que bom saber que num mundo como o nosso esse povo ainda mantenha essa inocência fundamental.
Mais surfistas aparecem: dois pesos-pesados tatuados ao estilo polinésio chegam remando em seus stand-ups. Continuo ligado, esperando minhas ondas, mas logo percebo como o tempo longe d’água cobrou seu preço. Sem ritmo, começo a dropar atrasado e vacar vez após vez. Numa mais cavada o pranchão embica, sou lançado de cabeça para baixo e depois percebo que o cara do SUP está me olhando um tanto ressabiado, com cara de “Será que esse branquelo sabe o que está fazendo?”. Imagino que nesse wipe-out a quatro-quilhas deve ter rodopiado como uma guilhotina desgovernada, isso já aconteceu. É claro que sei o que estou fazendo, só preciso reencontrar meu timing, me concentrar mais. Resolvo dar um tempo, afinal não há pressa nenhuma, nenhum fotógrafo, nenhuma pressão, nada.  Algumas séries de um metrão aparecem mais ao fundo e me vejo remando com tudo. Na verdade, remando pelo meu pescoço! Parece até que eu tinha esquecido que aquilo não é brincadeira... Caramba, isso é o surf, uma vacilada e o paraíso vira inferno. Não tenho nenhuma tatuagem nem a menor vontade de ganhar uma patada de tigre deste reef.
Eventualmente pego mais uma, saio um pouco tarde demais e, ao pular da prancha, sinto o dedão arrastar no coral. Incrível, mal encostou mas foi como pisar numa gilette – uns cortes agudos e ardidos como navalha. O pé começa a sangrar – será que tem tubarão aqui? Continuo na água. Já senti mais ou menos o astral, e passo a buscar um lugar melhor no line-up. Espero, espero e então surge uma onda. Achei que alguém iria, mas eles respeitaram a fila, ninguém vai e penso: Maravilha, ainda existe aloha, valeu!!! Não tem um metro mas remo com força, essa eu não erro. Dou uma passada, armo o cut-back, subo no lip, o bico aponta para baixo e então algo inédito acontece: bem embaixo de mim, o mar parece ter virado cristal líquido; por uma fração de segundo, suspenso sobre o espelho d’água, eu jurei que estava surfando no ar! Décadas de surf e nada, nada sequer parecido! Continuo de pé, simplesmente de queixo caído... A onda logo desaparece, mas a aquela imagem já havia sido tatuada para sempre na minha memória.
Mas Moorea não é só surf. Aproveitei também para fazer um tour pela ilha e acabei me deparando com visuais que me emocionaram, como a praia de Temae, um estudo de beleza e cor com alguns dos matizes mais espetaculares da Terra. Mergulhei com tubarões e arraias no famoso Lagoonarium, um passeio imperdível, e, claro, aproveitei para ir ao mercado adquirir uma das famosas pérolas do Tahiti. É um circuito pequeno, com basicamente uma estrada que circunda a ilha pela costa, e a todo momento você tem vontade de pular do carro e  sair correndo para se jogar na água – tal é a sucessão de assombros que toma conta das suas retinas.

Com o passar dos dias, fica claro de como eu precisava conhecer aquele lugar, e então começo a entender porque algumas pessoas dizem que nossos desejos mais fortes são maiores do que a própria vida – será então que são os sonhos que nos escolhem, e não nós a eles?
Meu corte vai cicatrizando, e com a entrada de um novo swell resolvo conhecer outra onda – Atiha.

Agora, com o Tahiti desmitificado e a prancha novamente no pé, pulo do barco tranquilo, já em tom de despedida daquele paraíso.

Há poucos surfistas na água. Sentado em silêncio em meio àquela imensa lagoa azul, paro para refletir sobre os acontecimentos dos últimos dias e então compreendo porque aquela viagem era tão importante para mim. Eu precisava retornar à fonte.
Após duas horas surfando como nos velhos tempos, os braços já não respondem, a maré começa a secar demais, e então percebo que chegou a hora de voltar para casa. Exausto, mas feliz, deixo a vazante me levar lentamente para o outside enquanto espero pela minha última onda.

E então ela vem; viro a prancha, remo decidido e um bodyboarder grita, incentivando. Uma longa parede se abre abençoada pelo terral e venho lá de trás do pico, dando passadas calmas com a 8’7, tão senhor de mim mesmo como se estivesse no píer do meu amado Rincão. Vou para a base, cavo e mando a rasgada; volto e percebo que um barco está chegando nesse momento, atento aos meus movimentos; dou uma olhada rápida e sinto a sincronia dele chegando e eu saindo;  continuo na parede,  já totalmente conectado ao momento presente, e então me percebo inteiro, consciente de onde estou; e junto disso, uma sensação inconfundível de que eu havia resgatado algo perdido no passado, de ter afinal reencontrado o surf na minha vida. Percebo como ele é sagrado para mim, que continua ali, onde sempre esteve, e que as minhas dúvidas existenciais nada tinham a ver com ele, mas sim, com uma profunda necessidade de viajar, de chegar aonde eu agora estava. Pela primeira vez em muito tempo, eu me sentia satisfeito; pela primeira vez em muito tempo, eu não sentia necessidade de estar em outro lugar: havia, afinal, saciado a minha sede de mundo. Me deixo levar mais um pouco, até o limite da bancada coralínea, e então saio, agradecido, enquanto mais uma pequena onda perfeita se desmancha nas águas das Îles du Vent.

quinta-feira, 31 de março de 2016

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Recife dos Mares do Sul

                                                          Tocando a onda em Cloudbreak. Foto: Hoover
                                                                                                                             
“Tavarua? Cloudbreak? Cara,tu perdeste o juízo?”
Era abril de 2015. Pela quarta noite consecutiva, eu rolava na cama sem conseguir dormir. As imagens de Endless Summer II dançavam na minha mente. “Tavarua é uma bela ilha com dois dos melhores locais de surf do mundo”, dizia Bruce Brown.  “ É mesmo um lindo lugar. Ar e água perto de 30° C o ano todo. A água mais bela que já vi. Aqui é Cloudbreak, no meio do oceano. Dá para ouvir as ondas quebrando no recife – o nome quer dizer recife do trovão. As ondas estavam demais...Tom Carrol surfou cada onda melhor que a outra. Em situações onde até os melhores procurariam segurança, Tommy dava uma virada e entrava no tubo, mesmo no raso!  Para Tom Carrol, a onda perfeita está em Cloudbreak.  Este é o tipo de dia com que você sonha. Um desses dias que só um surfista entende.”
 
 Eu já lera tudo sobre Tavarua e sabia que, se quisesse realizar o sonho de ir para lá, teria que tomar uma decisão – e rápido. Não tinha ideia de quantos meses era a lista de espera, mas algo me dizia que o tempo para bater a martelo e garantir meu lugar na temporada de ondas estava acabando. E mesmo assim, eu continuava numa tremenda batalha mental, lutando contra desculpas assustadoras como tsunamis que não paravam de me atormentar o sono:
 
É caro demais.
Eu não falo inglês.
Não tem ninguém para ir comigo.
Aquilo não é onda para mim.
É muito longe.

Lembrei, então, de como tinham sido duros os últimos tempos. Para resumir, eu havia padecido com graves problemas de saúde, um após o outro. Eu havia chego ao ponto em que fui obrigado a parar toda a minha vida e, de forma tão pessoal quanto possível, olhar para o céu e perguntar: “Será? Acabou? Não, não pode ser. Deus, e a minhas viagens? E o meu surfizinho sagrado, onde é que fica? Cara, será mesmo que eu vou perder isso para sempre?”

 Agora, eu estava saudável novamente. Após mais de um ano de dieta rigorosa, exames médicos mensais consultados com o coração aos pulos, dúvidas e mais dúvidas... Eu havia, afinal, me recuperado. Olhando para trás, vi o quanto tudo aquilo me modificara – eu agora não só passara a ter consciência do tesouro que possuía – minha saúde – como também compreendera, afinal, a tremenda sorte que é poder realizar algo tão complexo como uma surftrip para o outro lado do planeta. Recebera uma nova chance, e estava disposto a não desperdiçá-la.  Aquelas terríveis provações acabaram se revelando uma bênção disfarçada.

Olho para o relógio: três e meia da manhã. A lembrança dos tempos difíceis havia me feito bem. Eu tinha todos os meios para a viagem – precisava apenas decidir. Então, subitamente veio à memória aquela noite no hospital. Aquela vez em que, enquanto recebia uma transfusão, o sangue do cateter solidificou, e, na tentativa de desobstruir o coágulo, este acabou sendo empurrado para dentro da veia e eu urrei com a dor mais excruciante da minha vida. Aquela recordação foi o suficiente para mim. Fechei os olhos e dormi com a viagem decidida.
 
Algumas horas depois eu já estava na agência de turismo.
É engraçado como o Universo parece estar só esperando você tomar a grande decisão para começar a trabalhar a seu favor. Pois, não só ainda havia vagas – para agosto – no Tavarua Resort, como, no intervalo de meia hora para ir e retornar do banco, onde fui depositar o sinal da reserva, cheguei na Liquid Trips com uma ótima notícia me aguardando: a passagem aérea tinha caído 400 dólares. Segunda surpresa: o voo saía de São Paulo, “e eu sei que você quer usar suas milhas para ir daqui a Guarulhos”, disse Ligia, a agente de viagens. “Mas, vamos dar uma olhadinha no preço...” Alguns segundos depois, mostrou a tela do pc. Não acreditei: partindo de Floripa o valor era exatamente o mesmo – e com a mesma franquia de bagagem...

Duas belas coincidências – ou sincronicidades, se você preferir. Mas não as únicas: como ainda faltava reservar uma acomodação na Nova Zelândia, na volta, mandei um e-mail pedindo sugestões de hotéis em Auckland, e recebi uma lista. Após um fim de semana pesquisando dezenas no Trip Advisor, optei pelo Jucy, no coração da cidade. A Raquel, que agora era quem estava cuidando da minha trip, sorriu com a escolha: o irmão dela trabalha lá.
Os próximos meses foram de preparação para a viagem.  Matriculei-me num curso de inglês, caprichei no condicionamento físico, comecei a economizar mais e a me alimentar melhor. Encomendei um pranchão com três longarinas para aguentar a surra em Cloudbreak e decidi não falar da barca com ninguém. Como já havia gozado férias e tinha direito a licença-prêmio, entrei com o pedido logo em seguida – e rezei. Porque normalmente ela só sai a poucos dias do período requerido, e, às vezes, nem é concedida. Mas eu tinha escolha? Esperar para o ano que vem estava fora de cogitação. Eu teria que arriscar.

A sorte favorece os corajosos, diz o provérbio. Sim, eu havia ganho a licença. E é claro que, quando o avião finalmente decola e você está a 800 por hora em direção ao seu sonho, surge, mais uma vez, aquela antiga pergunta, a nossa dúvida mais essencial: se eu estava me sentindo feliz. Se eu estava me sentindo feliz? Mas eu me sentia o próprio pobre menino sortudo com o ingresso da Fantástica Fábrica de Chocolate na palma da minha mão! Aquilo não era apenas alegria: era um direto na cara do destino, era o triunfo contra todas as probabilidades contrárias, era Deus pegando em minha mão e conduzindo meu caminho... Eu sentia vontade de chorar, de berrar, de louvar aquele momento, porque eu havia conhecido o inferno naqueles 11 dias no hospital, mas Deus quis que me recuperasse, e agora, à Sua maneira, recompensava a minha fé. Fiji. Em dois dias, tudo se tornará real.
A travessia do Pacífico ocorreu sem maiores problemas, mas uma vaga inquietação permanecia: a hora de passar a alfândega na Nova Zelândia. Haviam me dito que, “teoricamente, se você mandar muito mal no inglês, eles podem te mandar de volta”. Imagine ouvir uma coisa dessas! Aquela era a viagem da minha vida, um desejo de 20 anos, como assim, me mandar de volta? Então, eu me preparei. Verifiquei antes absolutamente tudo que precisaria, quais perguntas me seriam feitas, o que eu deveria responder. O grande momento afinal chegou, e, quando vi, estava cara a cara com o agente de imigração, que mais parecia um flibusteiro, fazendo perguntas para mim. Eu uso aparelhos de audição e, para falar a verdade, não estava entendendo direito nada do que ele dizia. Mas eu havia reservado o meu maior trunfo exatamente para aquele momento, e perguntei:

“I have a booking in the hotel. Would you like to see it?”
Ele fez que sim com a cabeça. Então, como o próprio Long John Silver jogando o mapa da Ilha do Tesouro para os piratas um segundo antes de rebentar o motim, pus na frente dele a pastinha que organizara com todos os documentos da viagem. Reservas, passagens de ida e volta, extrato bancário, transfer para o hotel, seguro-viagem, tudo.  Ele a pegou como um especialista diante de um livro raro e começou a folheá-la atentamente; pude perceber, de imediato, que facilitar a vida dele havia sido uma ideia feliz.  De pé com as mãos para trás em postura de general, eu procurava me mostrar o mais impassível que podia, mas por dentro estava em alerta máximo, tão ligado como um chacal no deserto.

Ele fez mais algumas perguntas e, devolvendo meu passaporte, finalmente apontou o corredor e disse: “Ok. By the way.” E, diante do meu sorriso de agradecimento, completou: “Good waves!”.
Um peso enorme evaporara das minhas costas. Eu estava quase lá.

O trecho para Viti Levu também foi tranquilo, e cheguei na hora prevista em Nadi. Tudo estava indo muito bem – ou quase. Eu esperava que quem fosse me buscar no aeroporto portasse no mínimo um crachá, mas não – tudo o que aquele cara tinha era uma lista impressa com nomes de pessoas, e o meu estava nela. Achei suficiente, mas assim que entrei na van, ele perguntou se eu queria beber kava, e eu, pensando que seria durante a cerimônia na ilha, respondi que sim. E então ele me fez voltar para o aeroporto para comprar dólar fijiano para a bebida e eu disse que não queria agora. Exausto naquele calor e começando a perder a paciência, disse que não queria porcaria nenhuma, que queria ir para Tavarua e nada mais. Ele ainda insistiu pedindo algo que não entendi, mas só podia ser gorjeta e eu disse que não tinha troco. Mas o pior ainda estava por vir. Não bastasse ficar gesticulando para cada carro que passasse em sentido contrário, ele começou a dizer que alguém em sua família havia morrido; e então parou o carro na beira da estrada. Pediu um minuto e logo voltou com dois fijianos, cada qual mais mal-encarado, e o maior deles sentou bem atrás de mim.  Comecei a ficar preocupado. E fiquei mais preocupado ainda quando ele saiu da estrada principal para uma de terra em meio aos canaviais.
 Eu estava com a pulga atrás da orelha e podia ser só a minha imaginação, mas comecei a ligar os pontos. Nem ele, nem o carro, tinham qualquer identificação do resort. E aquela desculpa de trocar dinheiro para comprar kava, não seria só para ver quanta grana eu tinha? E a ligação do celular logo depois, que me pareceu um tanto nervosa, para quem teria sido? Analisando friamente, eu era mesmo o alvo perfeito: sozinho, desarmado, sem conhecer nada nem ninguém no país onde estava, com os preciosos dólares e cartão de crédito na mochila. Hóspede de um hotel onde o que eu pagaria num dia ele, dirigindo aquela van, provavelmente não ganharia num mês... Estava fácil demais: um revólver na nuca, o dinheiro entregue com mão trêmula, o corpo jogado no meio do canavial e estava liquidada a fatura. Eu já estava com o passaporte no bolso, olhando com o canto do olho para ver como abrir a porta daquela maldita van caso o pior se confirmasse. O “passeio” durou mais alguns minutos. Felizmente, algum tempo depois, com uma freada brusca à beira-mar, aquela viagem de trem-fantasma chegava ao fim, e pude ver, com indizível alegria, a ilha de Tavarua faiscando como uma joia no meio do Oceano Pacífico.

O bote já me esperava; pulei pra dentro com o maior suspiro de alívio da minha vida.
Ia ser uma semana maravilhosa.

O espetáculo visual da chegada em Tavarua é de arrepiar. De pé na proa, sem querer acreditar em meus olhos, eu observava aquela fantasia tropical de queixo caído, encantado demais para pronunciar palavra, com mil pensamentos passando pela cabeça.
Muito bem recepcionado e logo encaminhado ao meu bure, eu finalmente pude relaxar após aquela louca jornada de 2 dias até ali.

No outro dia de manhã, eu já estava em Cloudbreak.
Ah, Cloudbreak... Eu não preciso nem dizer nada; você já sabe do que estou falando. Um metro perfeito, glassy, sol e água quente – que lugar melhor para acabar com um jejum de 2 meses sem surfar e estrear uma prancha? O Beto da Calibre tinha mesmo feito um ótimo trabalho: a minha quadriquilha vermelha corria aquelas paredes como uma Ferrari. Não tinha erro: era dropar e entubar.

Após três horas de surf e com a rapaziada faminta, Namanu deu a partida e tocou a canoa de volta para terra firme. De cabeça feita e estirado sobre as capas de prancha com a viagem ganha, eu queria que aquele momento não acabasse nunca.
No outro dia, ao alvorecer, eu já estava de novo no barco para mais uma sessão.

O tempo havia mudado. Chuviscava e um vento lateral encrespava a face das ondas, que agora haviam dobrado de tamanho.
Era 7 horas da manhã e eu já estava na água. Normalmente meu corpo só está bem desperto lá pelas 9, mas o que eu podia fazer? Estava em Fiji, sonho com isso há anos, tenho que aproveitar cada minuto, eu pensava. Então, comecei a remar lentamente para o outside, já sentindo que os meus reflexos haviam ficado em terra.

Logo entrou a série e uma esquerda overhead veio direto para mim; virei a prancha e fui, saindo só lá embaixo em frente à torre, após a famigerada sessão 'shish kebabs'  – a parte final da onda,  que quebra sobre um recife raso que come carne  e do qual eu queria distância. Meus pés roçaram apenas de leve o coral, mas torci para que aquele primeiro contato fosse também o último.
Voltei para a zona intermediária para observar melhor o mar e esperar a boa.

Eu já estava há mais de meia hora tentando e não conseguira pegar mais nenhuma onda. Na verdade eu agora tremia de frio, mal remava e séries de 6’+ descascavam na bancada de coral. Eu sentia meus dentes castanholarem, meu corpo pedindo para voltar à segurança do barco, mas queria pegar mais uma.
Naquele momento, eu não tinha ritmo para disputar as ondas com o crowd; então fui para longe, até o primeiro pico, e aguardei.

Mas não precisei esperar muito: logo entrou uma nova série, e uma onda feia, escura e malvada surgiu do nada e começou a armar no outside.
Eu era o cara mais para fora, então aquela era minha; olhei por um momento, me posicionei e comecei a remar.

Havia lido em algum lugar para nunca ir na primeira, mas eu já surfara uma onda naquela manhã, outro tanto no dia anterior e achei que não teria problemas. Erro.
Confiante, fiquei de pé e dropei; dois segundos após já senti o long embicando sem controle enquanto eu despencava com tudo para cima do recife.

Vinte e sete anos de surf haviam me ensinado a cair com segurança, de forma que não fiquei muito preocupado; o que eu mais temia era depois, quando voltasse no repuxo e fosse centrifugado pelo lip.
Dito e feito: fiquei tranquilo na primeira explosão, e rezei enquanto, como um boneco de pano, fui arremessado de ponta-cabeça no vazio. Por mais capricorniano que fosse, eu senti, naquela fração de segundo, que o meu destino estava fora das minhas mãos.

Explodi junto com o lip e fui ejetado para cima, já sem a prancha; o leash 10’ Da Kine para SUP havia arrebentado como um barbante.
Vi que tinha escapado ileso e comecei a nadar, achando que estava bem, mas as mangas da jaqueta de neoprene encherem d’água e vi que estava em apuros. Mergulhei sob mais duas ondas e foi então que um cara que estava surfando sem cordinha veio e deu a prancha dele para mim. Depois daquele caldo eu não tinha mais energia nem para agradecer, então comecei a remar lentamente para fora da zona de impacto.

Por sorte, veio uma calmaria e consegui chegar ao barco, com a moral um tanto abalada – pela primeira vez na vida eu aceitara ajuda para sair do mar. O pranchão foi parar no outro lado do reef e só foi recuperado 40 minutos mais tarde, devidamente detonado. Antes ele do que eu.
 Eu passei o resto do dia... Como vou dizer... filosófico. Havia sido o wipe-out da minha vida e eu me perguntava onde tinha errado. A galera tinha assistido de camarote e os caras com quem falei, fazendo um gesto com a mão, afirmaram a mesma coisa: que na hora do take-off a prancha ficou totalmente na vertical – só que o meu longboard mede 8’7. Merda, será que estava maior do que eu pensava?

De qualquer forma eu estava inteiro, e foi com grande prazer que naquela noite, celebrando com o pessoal do resort mais um dia de altas ondas em Fiji, eu brindei à vida por ter surfado e voltado com a pele intacta de Cloudbreak.
Nos dias seguintes o vento apertou e praticamente acabou com o surf. Ainda peguei um fim de tarde num Restaurants bem mexido, mas o suficiente para me convencer que podia sim surfar aquela onda, que não era rápida demais.

Li os livros que levei, fui à missa (rezada em fijiano, imagine...), provei a famosa kava na cerimônia de boas-vindas, e, claro, aproveitei para conhecer melhor a galera local. E o staff de lá... Bem, acho que você já adivinhou o que eu vou dizer: o astral daquele povo é mesmo um capítulo à parte. Mas você não deve simplesmente acreditar em mim. Nem em Kelly Slater, que já disse que as pessoas de Tavarua são as mais legais do mundo. Não – tal impressão é muito particular. Você precisa confirmar isso ao vivo.
 Tavarua excede, de longe, o mais perfeito clichê tropical que se possa conceber, de uma forma que chega a ser ridículo. Está tudo lá: os coqueiros, a água cristalina, o poente alucinante, a comida farta, o povo acolhedor...  Como todo paraíso, também tem a sua serpente, mortal, é claro, mas pasme: além de mansa, ela é praticamente incapaz de inocular o veneno. Acredite se quiser, mas está no livro de hóspedes: ninguém até hoje perdeu a vida mordido lá! Tem tubarões, igualmente inofensivos, como eu mesmo atestei quando fui dar uma remada de stand-up ao redor da ilha e vi um a três metros de mim. Sol o ano todo, cobras que não matam, tubarões que não mordem e as ondas mais perfeitas da Terra – tudo isso nessa pequena ilha caprichosamente shapeada em forma de coração. Se eu não visse, eu não acreditava...

De qualquer forma, minha semana chegou ao fim e voltei para a Nova Zelândia. Eu ainda tinha duas noites na terra dos Kiwis antes de regressar para o Brasil.
Minha passagem pela Ilha Norte foi rápida, e com o tempo frio e chuvoso não pude conhecer muito. Ficou na memória o translado para o hotel, a calma transcendente que senti enquanto, depois de vencer tantos medos e realizar aquele sonho antigo, eu era conduzido velozmente pelas avenidas de Auckland. Após meses de aulas de inglês, centenas de consultas ao google tradutor e uma tremenda ansiedade, chega um ponto importantíssimo em sua viagem em que você finalmente se percebe confortável tão longe de casa; neste momento, você atravessou uma fronteira. Sua mente se expandiu, e você nunca mais é o mesmo.

Para mim, Fiji foi um ponto de inflexão, um recomeço. Tomar a decisão de ir para tão longe, e sozinho, surfar aquele arrecife no meio do nada foi um dos maiores riscos que já assumi na vida, mas que, ao mesmo tempo, me trouxe alguns dos momentos mais gratificantes que já experimentei. Você faz as pazes com o seu passado quando ele lhe trouxe até o dia de hoje, com saúde e surfando as ondas da sua vida – e ainda por cima, escapando sem nenhum arranhão. Porque não faria?

 Valeu a pena? Tudo vale a pena
 Se a alma não é pequena.
 Quem quer passar além do Bojador
 Tem que passar além da dor.
 Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
 Mas nele é que espelhou o céu.
                 
                                      [Fernando Pessoa]

*Publicado no portal Waves como Um sonho chamado Fiji.
http://waves.terra.com.br/waves/expedicao/barca-da-galera/fotos/um-sonho-chamado-fiji