quinta-feira, 1 de julho de 2010

Aos pais, com carinho

Era uma vez um menino pobre que morava na China e estava sentado na calçada do lado de fora da sua casa. O que ele mais desejava era ter um cavalo, mas não tinha dinheiro. Justamente neste dia passou em sua rua uma cavalaria, que levava um potrinho incapaz de acompanhar o grupo. O dono da cavalaria, sabendo do desejo do menino, perguntou se ele queria o cavalinho. Exultante o menino aceitou. Um vizinho, tomando conhecimento do ocorrido, disse ao pai do garoto: "Seu filho é de sorte!". "Por quê", perguntou o pai. "Ora", disse ele, "seu filho queria um cavalo, passa uma cavalaria e ele ganha um potrinho. Não é uma sorte?". "Pode ser sorte ou pode ser azar!" comentou o pai.
O menino cuidou do cavalo com todo o zelo, mas um dia, já crescido, o animal fugiu. Desta vez, o vizinho diz: "Mas seu filho é azarento, heim! Ele ganha um potrinho, cuida dele até a fase adulta e o potro foge!". "Pode ser sorte ou pode ser azar!", repetiu o pai.
O tempo passa e um dia o cavalo volta com uma manada selvagem. O menino, agora um rapaz, consegue cercá-los e fica com todos eles. Observa o vizinho: "Seu filho é de sorte. Ganha um potrinho, cria, ele foge e volta com um bando de cavalos selvagens!"
"Pode ser sorte ou pode ser azar!", responde novamente o pai. Mais tarde, o rapaz estava treinando um dos cavalos quando cai e quebra a perna. Vem o vizinho:" Seu filho é de azar! O cavalo foge, volta com uma manada selvagem, o garoto vai treinar um deles e quebra a perna.".
"Pode ser sorte ou pode ser azar', insiste o pai.
Dias depois, o reino onde moravam declara guerra ao reino vizinho. Todos os jovens são convocados, menos o rapaz que estava com a perna quebrada. O vizinho: "Seu filho é de sorte..."
(Lair Ribeiro).

Ponto de vista

A sabedoria desta fábula, como se vê, é muito simples e essencial: a sorte ou o azar, que tão claros parecem se afigurar em certos momentos da nossa vida, na verdade dependem apenas do nosso ponto de vista. Para aqueles que aguardam com ansiedade o nascimento do filho, por exemplo, e que muitas vezes choram ao ser constatado algum grau de perda auditiva no bebê, ela é uma verdade confortadora. Por quê? Porque, por mais que se sonhe com um mundo ideal e se deseje filhos perfeitos, a realidade pode acabar se revelando muito diferente, muito distante do que esperamos. O conceito de amor incondicional pode nascer de grandes desilusões, mas é, talvez, o sentimento mais perfeito que existe. Eu não sou pai, então só posso imaginar as expectativas, as desilusões, as lutas e , finalmente, o orgulho de ver seu filho amado e educado como ele é, e não como gostariam que fosse; a alegria de vê-lo, em seu próprio ritmo, enfrentar e persistir apesar das dificuldades, e da felicidade de compartilhar com ele as vitórias. E quem sabe um dia, ao ver a criança completamente absorta em seu mundinho silencioso, talvez até sentir uma pontinha de admiração com a paz daquele a quem Deus deu o imenso privilégio de viver num mundo especial, tão aberto às melodias que vem de dentro - e tão impenetrável aos ruídos que vem de fora...

*Publicado no Jornal emFoco, (#50, página 15), informativo do Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais, Universidade de São Paulo.

2 comentários:

El Torero disse...

Grande Guga, o Esopo catarinense.
Sempre um prazer lê-lo.

Camarada, aproveito para te dar a dica de visitares a exposição de obras de Franklin Cascaes no museu Cruz e Souza. Linda, instigante, traz um olhar 'desengessado' sobre o artista catarinense.
Abraço.

Anônimo disse...

HAUHUAHUAHA
Po rapz q exagero!
Po gostei da sugestão, vou lá ver sim!
Abração, camarada!!!!

Gustavo