terça-feira, 2 de agosto de 2011

O sonho da razão produz monstros

Em breve, robôs estarão disponíveis para nos ajudar na cozinha, dobrar roupas recém-lavadas e até mesmo cuidar de nossas crianças (...)Daqui a cinco ou dez anos, os robôs vão ser presença corriqueira em ambientes humanos’". National Geographic Brasil, agosto 2011.

Diante dos interrogadores, Anders Behring Breivik explica aos incrédulos homens à sua frente como planejou o ataque que matou mais de 90 pessoas. “Foi tudo calculado”, ele afirma, com frieza impressionante “cruel, mas necessário.”

O sonho da razão produz monstros.

Bem que o saudoso Dr Joseph Campbell nos alertou: não se esqueça de ouvir seu coração.

E as pessoas, apontando para o matador da Noruega, ainda perguntam: Como ele pôde?

Como se Anders “cara-de-anjo” Behring fosse mesmo o único culpado.

Ah, fosse mesmo assim tão simples a explicação...

A verdade só podia ser terrível - Anders é um indicador. Uma luzinha vermelha que piscou no painel de controle da humanidade.

E o que está errado?

Tudo.

Tudo o que o ser humano mais se orgulha: A razão.

Massacramos o assassino justamente porque ele se tornou a expressão humana do frio calculismo que negamos dentro de nós.

Alguém aí lembrou da catástrofe das torres gêmeas? É só uma mudança de trincheira.

A doença é a mesma.

Wall Street?

Olhem estes executivos; como sorriem.

E os cadáveres tilintam no armário a cada nova jogada.

No painel de controle, luzes incômodas começam a piscar, mais e mais.

E, na tentativa de justificar, a intelligentsia supõe uma ainda mais suposta demência, talvez nacionalismo, imigração ou política...

Mais uma vez, o ser humano nega o que está bem embaixo do seu nariz. E aponta, como já no Paraíso, o dedo para longe de si - pouco importa para onde.

Do lado de cá do peito, um invólucro latejante insiste em chamar a atenção.

Mas, pensando bem: para que? Os robôs, garantem os cientistas, já em breve embalarão o sono de nossos filhos...

Num filme que não peguei o nome, um executivo que não lembro quem, explica aos colegas porque está festejando o Natal no escritório: “Porque sou um f. que só pensa em dinheiro.”

Espero que seja ficção. E eu que tanto reclamava dos meus pais trabalhando demais.

O Grande Jumbo aderna em meio à turbulência, em sombria viagem do nada ao lugar-nenhum.

Meus amigos, minhas amigas: eu lhes peço. Parem. Olhem. Escutem seu coração.

Deem um abraço de verdade em suas mães e pais, vôs e avós, irmãos e irmãs, se ainda os têm; perdoem seus amigos, suas namoradas e namorados, quem sabe, seus ex-futuros-atuais.

Não levem as coisas ao pé-da-letra. Não; não levem, eu lhes peço. Há tanta beleza ainda a ser desfrutada! E duvidem, pois a mente, como a matemática, é perfeita, mas ainda mais fria que esta e por isso realmente não pode aquecê-los, fazê-los gritar e chorar essas lágrimas quentes que tudo perdoam, que vêem no próximo a extensão de sua humanidade.

Tristes tempos, estes... A razão se tornou uma doença universal.

Em meio à turbulência o Jumbo luta pela vida.

O painel de controle pisca e apita descontroladamente.


Imagem acima: O sonho da razão produz monstros, de Francisco José de Goya y Lucientes (1746-1826), pintor espanhol.

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