terça-feira, 14 de abril de 2015

Diário de Chicama

                                                                                              Foto: El Zorro

Viagens de surf são, por natureza, temperamentais. Você pode ter que passar uma noite miserável dormindo no chão do aeroporto, pegar uma infecção intestinal jurássica, extraviar a prancha, não entender a língua local, ou, principalmente, não ver as ondas com que sonhou a vida inteira. São, numa palavra, um mergulho no desconhecido. Em minha recente viagem ao Peru, realizei o antigo sonho de surfar a mística onda de Chicama, a Machu Picchu do Oceano Pacífico. E já que meus amigos, todos casados, não partiriam mais, resolvi encarar antigos medos e dar este mergulho da maneira mais esseral, sozinho.
19/03, 07: 25. Hora do desayuno. Por um erro da funcionária da cia aérea, o longboard e a mochila ficaram em Lima. Saí do aeroporto de Trujillo furioso, mas pude dormir bem (o hotel é excelente) e acordei me sentindo um pouco melhor. Só que o mar, já pequeno, baixou ainda mais, e o maldito leite sem lactose para o café demorou 50 minutos para chegar. Volto para o meu quarto cabisbaixo.

Pela primeira vez na vida, você está em voo solo para outro país. Suas trips anteriores com amigos lhe deram um pouco de confiança, mas viajar em solitário é algo muito diferente. Uma vez que embarcou no avião, você está por sua própria conta, e se verá obrigado a usar tudo o que aprendeu: falar algumas palavras da outra língua, o que levar e o que deixar em casa, como funciona o procedimento do seguro, ficar de olho nas suas coisas, respeitar os locais, antecipar perigos. Cuidar do dinheiro, onde guardar o passaporte, não beber água da torneira, o que comer e o que não... E, claro, vencer o medo do mito que você próprio criou daquele lugar.  Conforme o grande dia se aproxima, você repassa, mais uma vez, os detalhes, e se visualiza ouvindo uma música relaxante, um jazz, criando assim um estado mental onde pode  se sentir em segurança. Não que o ato de viajar tenha muito a ver com segurança, mas sentir-se seguro é fundamental – quem quer ter um surto de pânico ou ligar para a mãe a 10.000 km de casa? Cada pessoa tem um jeito para confortar a si própria, e, por ter surdez severa desde criança, cedo tive que encontrar uma forma de me sentir confortável em meu intocável mundinho silencioso. E o meu método foi sempre o mesmo: um canto só para mim, um livro e uma barra de chocolate. Esta santíssima trindade foi, incontáveis vezes, o porto seguro no qual me abriguei enquanto lá fora o mundo desabava.

 Na noite anterior você mal consegue dormir, uma mistura de temor e ansiedade indicando que está prestes a sair da zona de conforto. Mas de repente, as turbinas do avião roncam, a aeronave acelera e então você respira fundo e sorri, pois o maior medo já foi vencido: o de ficar no sofá de sua casa vendo outros surfando aquela onda mágica na tela da TV de “alta definição”.
20/03, 09: 30. O mar continua baixo, e apesar de o hotel ter pranchas à disposição, nem penso em estrear nestas condições. Vou fazer um reconhecimento do vilarejo. Em frente à uma antiga pousada, um velho senhor sentado numa cadeira me cumprimenta num dialeto ininteligível. Fico sabendo depois que é o lendário El Hombre de Chicama. Depois de visitar a surf shop local, compro algumas balas de chocolate na vienda ao lado, enquanto bebo no gargalo uma inca-kola. Agradeço e sigo meu caminho. E, depois de alguns minutos caminhando, chego ao famoso penhasco do Point.

 À minha direita, apenas o deserto, onde ruínas de civilizações pré-colombianas ainda aguardam ser descobertas. Alguns pés à esquerda, um precipício. E, para o norte, um panorama de proporções inacreditáveis se descortina bem à minha frente, com séries de ondas que se estendem a perder de vista quebrando em absurda regularidade, como se fossem estacionárias.  Eu havia me imaginado tantas vezes em cima daquele rochedo. E agora estava exatamente ali, como se um portal se abrisse e eu tivesse adentrado diretamente no meu sonho. Lá embaixo, na praia, pedras roliças como ovos fossilizados claqueavam a cada nova série, o eterno marulhar do oceano murmurando uma sinfonia de eternidade. Ao longe, contrafortes gigantescos se elevavam das brumas como aparições misteriosas. Em silêncio, sozinho sob o sol do deserto, oro em agradecimento simplesmente por estar ali.

Numa viagem, como na vida, saber lidar com frustações é essencial. Sem a sua prancha e com o mar flat, uma hora se torna claro que praguejar de nada adianta. Então você decide aceitar a situação, relaxar, e assim resolve desfrutar o que tem à mão: trava conhecimento com os outros hóspedes e funcionárias do hotel, curte a piscina e o spa, faz massagem, assiste um programa de TV em espanhol, lê os bons livros que levou. E, de repente, a sua sorte começa a mudar: a prancha e mochila chegam, intactas.  O mar começa a reagir. No fim de tarde alguém lhe diz que pode ter algo em The Cape, depois da curva do Point. Na última hora você decide ir, e assim que sobe no bote, uma felicidade contagiante toma conta de todos, de você e dos seus dois novos amigos locais. Essa mesma felicidade que você sentiu pela primeira vez naquele zodiac para Sandino, na Nicarágua, voltou com força total, você está quase a explodir de alegria, e todos no barco estão rindo o riso daqueles que sabem que pertencem ao mar. Você nem desconfia, mas em alguns instantes, com o pico só para si, estará surfando a onda mais longa da sua vida.
21/03, 21:00 . O swell finalmente acertou, mas sem conhecer o pico e suas correntes, peguei poucas ondas de manhã. No fim de tarde, o mar melhorou, a corrente diminuiu e pude atestar a realidade da fama do Point, ao pegar ondas de cansar as pernas, mas muito fáceis de surfar. Normalmente manobramos por instinto, mas a onda é tão regular e perfeita que é possível planejar a sua linha, onde acelerar, onde tentar algo radical, a hora certa de mandar um bom cutback, o cutback mais redondo que acertei na vida. Muitas ondas depois, percebi claramente onde podia melhorar, me concentrei nisso, e senti que meu surf havia evoluído.

Saboreio calmamente um aperitivo, e enquanto não chega o jantar, vou conversando com os outros hóspedes, pessoas do mundo inteiro reunidas ali pelo desejo comum de surfar a esquerda mais longa da Terra. Um nativo recém-chegado sorri e me acena de longe. Fico sabendo que é o fotógrafo Jesús Florian, o famoso “El Zorro”. Capturou algumas imagens minhas pela manhã, quando não surfei bem, mas o que são algumas fotos ruins quando quem as tirou foi um lenda materializada na sua frente? Vou dormir cedo, amanhã já é o meu último dia aqui e quero aproveitar cada minuto.
Você já está completamente familiarizado com o lugar. O mito deu lugar à realidade, e esta você gostaria que se prolongasse por muitos dias ainda. Entre as séries você imagina porque razão - se é que existe uma - aquelas ondas são tão absurdamente longas. Qual surfista no mundo teria pernas para surfar esta onda até o fim? De tantas dúvidas que tinha antes de embarcar, você pode encontrar algumas respostas, mas, aqui no Point, o mistério fundamental permanece. Está no pôr do sol, em cada pequeno lagarto, em cada pedra, rosto e onda infinita que você levará na memória, para sempre.

23/03, 23:30. Finalmente, em casa. Depois de 24 hs de viagem e mais uma noite terrível no aeroporto, tenho o prazer de dormir novamente em minha cama. Com o rosto castigado, os pés queimados e os lábios rachados do sol, o corpo esgotado e cheio de hematomas. Poucas coisas na vida se igualam à sensação de enfrentar um grande medo, encarar o dragão, e chegar em casa vitorioso ao fim da jornada. Depois de um bom banho quente e já com a cabeça no travesseiro, sinto gratidão pela minha vida e uma estranha paz enquanto adormeço, já pensando no destino da minha próxima surftrip.

Texto publicado em versão editada no portal Waves, o maior site especializado em surf do Brasil:
http://waves.terra.com.br/waves/expedicao/barca-da-galera/diario-de-chicama.

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