quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Sede de Mundo





                                   De volta à fonte. Haapiti, Polinésia Francesa


 A pequena canoa a motor foi lentamente se aproximando do point, aproveitando o intervalo entre as séries. Então, do profundo azul do Oceano Pacífico, por uma brecha na gigantesca barreira de corais que circunda a ilha, uma esquerda cristalina entrou contornando e despejando um tubo sobre o arrecife, um local de SUP deslizando em plena sintonia com a onda.
E eu – depois de uma travessia de 10 mil km e não querendo outra coisa que não fosse mergulhar de uma vez naquelas águas transparentes – fiz menção de já ir colocando o leash e pulando no mar dali mesmo. Mas o guia disse: “Watch”.

Obedeci. Afinal, por mais ‘dreamin’ que parecesse aquela arrebentação, ainda era fundo de coral, pedra bruta. Lembrei de que já fazia cinco meses que eu não surfava.  Puxei a cyber-shot e fiquei os próximos 10 minutos apenas fotografando e contemplando.
Era setembro, temporada dos swells de sul nas Ilhas Sociedade. E, ali, realizando um de meus maiores sonhos, eu estava prestes a surfar Haapiti, na costa sudoeste de Moorea. Como de costume, sozinho. E como não poderia deixar de ser, novamente com meus dois longboards vermelhos – minhas quads velhas-de-guerra já testadas e aprovadas em Sandino, Chicama, Restaurants e Cloudbreak.

Ao contrário das outras trips, que haviam rolado com astral de pura aventura e diversão, nesta eu experimentava uma sensação diferente – uma certa ansiedade. O fato era que, aos 37, eu já começava a pensar na crise dos 40 – no balanço que fazemos no meio da vida entre todos aqueles sonhos acalentados desde a infância e a realidade de quem nós afinal nos tornamos. Quanto mais se me aproximava a quarta década, mais eu começara a sentir um certo temor, um medo de um dia ser despertado de repente por um tremendo arrepio de consciência, e então me ver num bar sujo esperando mais um aperitivo enquanto tantas aspirações continuavam não realizadas, sem sequer uma resposta. Eu não queria chegar na metade do caminho simplesmente dizendo, por exemplo, que tal realização tinha sido “o meu Everest”. Não. Eu queria chegar lá sabendo se o Himalaia era importante para mim, e se fosse, o que eu havia feito a respeito. Eu precisava mesmo ir um pouco longe para pensar.
E se havia um lugar no planeta que eu realmente desejava era a Polinésia Francesa. Aquela inacreditável paleta azul no oceano... as lindas mulheres de cabelos negros... aquela pureza no semblante... os tubos perfeitos... toda aquela mística de paraíso me atraíam há muito tempo. Então, eu estava mesmo de olho na oportunidade – quando esta surgiu, eu fechei a trip em uma tarde, digitando em meu notebook no conforto da minha casa.  Sabe a sensação de estar com um bilhete premiado e não acreditar que é seu? Mesmo com tudo garantido, eu só fui cair na real com o rugido do avião em Floripa.

Finalmente, então... o Tahiti?! Sim, eu me sentia mais aliviado. Porém, lá no fundo, alguma coisa ainda me incomodava.
Mas eu entendia aquela inquietação. O fato era que mesmo já tendo feito algumas boas viagens pelo Brasil, eu só começara a viajar pra fora do país no começo dos 30, o que eu considerava tarde, e acabara ficando com uma sensação de tempo perdido. O caminho era longo, bem longo, e eu estava mesmo precisando fazer um balanço dos últimos anos. Assim, me pus a recordar: a primeira surftrip com os amigos, para o norte do Peru. Esquerdas de cansar as pernas em Lobitos. Depois, América Central, onde peguei o tubo da vida e percebi que dava para mim. Aquela volta pelo Caribe panamenho, sem condições físicas para surfar, na verdade caminhando com dificuldade devido a uma severa lesão no quadril, mas uma viagem importantíssima para provar a mim próprio que a mente era teimosa e continuava mandando no corpo. Depois, meu primeiro voo solo para fora, aquele cut-back inesquecível no deserto. A barca eterna para Tavarua.  A volta para Malabrigo, já me sentindo em casa, em abril de 2016. E agora, e finalmente, o Tahiti.

 Mas o passar dos anos não era só o que me inquietava. O próprio surf ocupava um espaço cada vez menor em minha vida, e eu não sabia exatamente o porquê. Talvez a chegada à idade adulta e sua inevitável mudança de prioridades, ambições profissionais, contas a pagar; talvez a água gelada e o frio, que meu corpo já não suportava como aos vinte anos, o fato é que eu agora passava meses fora d’água sem sentir falta. Não pude deixar de lembrar da vez em que, após voltar de uma dessas viagens, comentei brincando com um amigo que preferia surfar duas vezes por ano nas melhores ondas do mundo do que cair toda semana em ondas de meio metro reformando na praia perto da minha casa. Agora, por mais surreal que fosse, eu me via cumprindo a minha própria profecia.
Como tantas vezes acontece, a realidade nunca sai de acordo com os nossos planos. Para começar, as conexões entre Florianópolis e Papeete (um trecho de 40 horas) eram simplesmente terríveis – foi, de longe, a pior viagem de ida que tive até hoje. Depois, a pousada. Era segura, de frente para o mar, e com um café da manhã servido; se você surfasse, o dono te levava de barco para dois picos de surf próximos – mas nada muito além disso. Não havia ar-condicionado, o banheiro era compartilhado e o wi-fi era definitivamente uma porcaria. Eu não posso reclamar do proprietário, que me levou até ao médico quando vaquei e pensei ter estourado o tímpano, mas percebi que ter que cuidar de tudo sozinho – buscar os hóspedes no terminal do ferry, fazer o supermercado, preparar o café da manhã, limpar os banheiros, regar o jardim, cuidar da filha, me levar para surfar – deixava a reserva de paciência dele meio que no limite. Eu até entendo, mas não concordo – e ver o seu próprio anfitrião estressado e gritando com você pela barreira da língua e pelo fato de você estar sem seu aparelho de audição no ouvido inflamado foi uma experiência que nunca esperei ter, e nem quero repetir – ainda mais no Tahiti.

De todo modo, como surfista viajante, eu não podia me queixar. Para começar, o oceano – o que eu havia feito para merecer todo aquele azul-turquesa? O visual das montanhas, aguilhões apontando para os céus em meio às brumas; o clima em constante mutação; e as vagas, sempre a arrebentar ao longe com assustadora beleza no anel de coral – o Tahiti é um lugar dramático. E agora, em meio aquele cenário, eu me preparava para a minha primeira sessão na Polinésia.
Fui sem pressa, curtindo o momento. De onde eu estava, bem no meio do passe no recife, um canal seguro de onde podia ver uma esquerda de um lado, e à minha direita, uma onda quebrando nesta mesma direção. Paro de remar. Olho para as escarpas ao longe. Bom Deus, eu estou aqui mesmo?
Vou sentindo e entrando na vibe, decifrando o crowd. Um local de SUP sorri e acena. Aceno de volta e sorrio também. Fiquei sabendo que lá é costume apertar a mão dos outros surfistas no outside, então cheguei prestando bastante atenção nisso, mas como não vejo ninguém fazendo, fico na minha. Do nada, sobra uma para mim. Remo, a galera vira para ver, dropo e vou costurando. A onda acaba, saio e deixo a corrente me trazer de volta, devagar. Já falei que é para esses momentos que eu vivo? Esquerdas perfeitas, água agradável e um canal que parece moldado pelas mãos de Deus. Trabalhei e economizei meses por este momento, não me belisque, faz favor.  De repente, percebo um vulto do meu lado, me viro e...  é um cara estendendo a mão!

Caramba, então era verdade?! Isso nunca aconteceu antes, um completo desconhecido vir até mim apenas para me cumprimentar? Surfista, quando se aproxima muito de outro que não conhece, normalmente é para rabear, olhar feio ou xingar. Um tanto surpreso, retribuo o comprimento com um tímido “Hi!”.
Fico feliz, claro, mas continuo ligado.  Imagine, surfar em fundo de coral... Já falei que o guia está surfando também... de capacete? Então, nada de baixar a guarda aqui.  E depois, já notei que tem uns fominhas também. Claro que são os mais sérios, que novidade. É sempre assim, quanto mais adesivos no deck e ondas pegas por minuto, mais amarrados ficam os semblantes dos caras. Esqueça suas fantasias com os Mares do Sul, aqui também tem disso. Merda, olha o doido vindo ali! Rápido, larga essa prancha, respira, mergulha e... Anotou a placa? O cara veio manobrando e despencou com a quilha a um centímetro da minha cabeça! Meu, o que eu estava pensando? Essa foi por pouco...
Moorea é considerada ilha-irmã do Tahiti e é verde, absolutamente verde; basicamente, um imenso jardim. Pude observar com atenção o estilo de vida deles; é de uma simplicidade encantadora. Mas que, claro, faz todo o sentido. Afinal, quando você vive isolado num rochedo no meio do mar, o que fazer? Exatamente, vive-se de acordo com o que a Natureza oferece! Peixe, coco, abacaxi, manga... Fruta-pão... Flores... Pérolas...  Claro que eles já estão tão conectados quanto qualquer um de nós, mas por um breve momento, eu tive um vislumbre de como é a vida humana em seu estado natural – e, em contraste, do quão fajuto se tornou, em tantos aspectos, o nosso aclamado estilo de vida “moderno”. Fiquei pensando de como já estamos tão imersos na loucura, na verdade, que, sem mais nem perceber, acabamos a enaltecendo, como quando exaltamos restaurantes capazes de cobrar fortunas por pratos mirabolantes – centenas de dólares por uma refeição. Você acredita que existe um, que tem não sei quantas estrelas no guia Michelin, famoso por preparar uma sobremesa temperada com ouro em pó? Ouro em pó! Impossível ficar indiferente com um disparate desses, fingir que não é conosco. Claro que é.  São nossos valores, esta insana cultura de plástico que nós mesmos criamos. Por um momento, senti mesmo vergonha por já ter precisado ir ao médico e nutricionista para saber o que devo comer. Que prova maior do quão processada se tornou minha alimentação... Mas acho que o que mais me surpreendeu foi o hábito que todos eles – homens e mulheres, velhos, jovens e crianças... têm de andar com uma flor na orelha. Sim, uma flor. Vão ao supermercado... Passear... Trabalhar... Brincar... Imagine a cena: um homem adulto em pleno século XXI caminhando tranquilamente na rua com a família, a cabeça adornada com uma flor! Parece factível? Para um americano ou europeu, algo impossível de se compreender. Mas que bom saber que num mundo como o nosso esse povo ainda mantenha essa inocência fundamental.
Mais surfistas aparecem: dois pesos-pesados tatuados ao estilo polinésio chegam remando em seus stand-ups. Continuo ligado, esperando minhas ondas, mas logo percebo como o tempo longe d’água cobrou seu preço. Sem ritmo, começo a dropar atrasado e vacar vez após vez. Numa mais cavada o pranchão embica, sou lançado de cabeça para baixo e depois percebo que o cara do SUP está me olhando um tanto ressabiado, com cara de “Será que esse branquelo sabe o que está fazendo?”. Imagino que nesse wipe-out a quatro-quilhas deve ter rodopiado como uma guilhotina desgovernada, isso já aconteceu. É claro que sei o que estou fazendo, só preciso reencontrar meu timing, me concentrar mais. Resolvo dar um tempo, afinal não há pressa nenhuma, nenhum fotógrafo, nenhuma pressão, nada.  Algumas séries de um metrão aparecem mais ao fundo e me vejo remando com tudo. Na verdade, remando pelo meu pescoço! Parece até que eu tinha esquecido que aquilo não é brincadeira... Caramba, isso é o surf, uma vacilada e o paraíso vira inferno. Não tenho nenhuma tatuagem nem a menor vontade de ganhar uma patada de tigre deste reef.
Eventualmente pego mais uma, saio um pouco tarde demais e, ao pular da prancha, sinto o dedão arrastar no coral. Incrível, mal encostou mas foi como pisar numa gilette – uns cortes agudos e ardidos como navalha. O pé começa a sangrar – será que tem tubarão aqui? Continuo na água. Já senti mais ou menos o astral, e passo a buscar um lugar melhor no line-up. Espero, espero e então surge uma onda. Achei que alguém iria, mas eles respeitaram a fila, ninguém vai e penso: Maravilha, ainda existe aloha, valeu!!! Não tem um metro mas remo com força, essa eu não erro. Dou uma passada, armo o cut-back, subo no lip, o bico aponta para baixo e então algo inédito acontece: bem embaixo de mim, o mar parece ter virado cristal líquido; por uma fração de segundo, suspenso sobre o espelho d’água, eu jurei que estava surfando no ar! Décadas de surf e nada, nada sequer parecido! Continuo de pé, simplesmente de queixo caído... A onda logo desaparece, mas a aquela imagem já havia sido tatuada para sempre na minha memória.
Mas Moorea não é só surf. Aproveitei também para fazer um tour pela ilha e acabei me deparando com visuais que me emocionaram, como a praia de Temae, um estudo de beleza e cor com alguns dos matizes mais espetaculares da Terra. Mergulhei com tubarões e arraias no famoso Lagoonarium, um passeio imperdível, e, claro, aproveitei para ir ao mercado adquirir uma das famosas pérolas do Tahiti. É um circuito pequeno, com basicamente uma estrada que circunda a ilha pela costa, e a todo momento você tem vontade de pular do carro e  sair correndo para se jogar na água – tal é a sucessão de assombros que toma conta das suas retinas.

Com o passar dos dias, fica claro de como eu precisava conhecer aquele lugar, e então começo a entender porque algumas pessoas dizem que nossos desejos mais fortes são maiores do que a própria vida – será então que são os sonhos que nos escolhem, e não nós a eles?
Meu corte vai cicatrizando, e com a entrada de um novo swell resolvo conhecer outra onda – Atiha.

Agora, com o Tahiti desmitificado e a prancha novamente no pé, pulo do barco tranquilo, já em tom de despedida daquele paraíso.

Há poucos surfistas na água. Sentado em silêncio em meio àquela imensa lagoa azul, paro para refletir sobre os acontecimentos dos últimos dias e então compreendo porque aquela viagem era tão importante para mim. Eu precisava retornar à fonte.
Após duas horas surfando como nos velhos tempos, os braços já não respondem, a maré começa a secar demais, e então percebo que chegou a hora de voltar para casa. Exausto, mas feliz, deixo a vazante me levar lentamente para o outside enquanto espero pela minha última onda.

E então ela vem; viro a prancha, remo decidido e um bodyboarder grita, incentivando. Uma longa parede se abre abençoada pelo terral e venho lá de trás do pico, dando passadas calmas com a 8’7, tão senhor de mim mesmo como se estivesse no píer do meu amado Rincão. Vou para a base, cavo e mando a rasgada; volto e percebo que um barco está chegando nesse momento, atento aos meus movimentos; dou uma olhada rápida e sinto a sincronia dele chegando e eu saindo;  continuo na parede,  já totalmente conectado ao momento presente, e então me percebo inteiro, consciente de onde estou; e junto disso, uma sensação inconfundível de que eu havia resgatado algo perdido no passado, de ter afinal reencontrado o surf na minha vida. Percebo como ele é sagrado para mim, que continua ali, onde sempre esteve, e que as minhas dúvidas existenciais nada tinham a ver com ele, mas sim, com uma profunda necessidade de viajar, de chegar aonde eu agora estava. Pela primeira vez em muito tempo, eu me sentia satisfeito; pela primeira vez em muito tempo, eu não sentia necessidade de estar em outro lugar: havia, afinal, saciado a minha sede de mundo. Me deixo levar mais um pouco, até o limite da bancada coralínea, e então saio, agradecido, enquanto mais uma pequena onda perfeita se desmancha nas águas das Îles du Vent.

Um comentário:

dacostaproducoes disse...

Maravilha de relato. Delicioso de ler. Parabéns!!