Olá!
Quem leu o artigo sobre o 23 EIA, logo mais abaixo, deve ter notado que comentei em escrever um artigo sobre os aparelhos auditivos estarem virando moda... Bem, aqui está ele. A idéia é bem simples e, embora esteja mais avançada no primeiro mundo, é apenas uma questão de tempo para chegar ao Brasil. Como disse Marcel Proust:
"O verdadeiro ato da descoberta não consiste em encontrar novas terras, e sim em vê-las com novos olhos"
Este artigo foi publicado na última edição da revista Audio-Infos (março-abril 2008) com o título: De próteses feias e incômodas a acessórios de luxo high-tech. Para reproduzi-lo, favor pedir autorização a mim e ao editor da revista: Stéphane Davoine (http://www.br.audio-infos.eu/)
Boa leitura!
DE PRÓTESES FEIAS E INCÔMODAS A ACESSÓRIOS DE LUXO HIGH-TECH
Demorou, mas ao que tudo indica está em pleno curso uma mudança radical de paradigma no mundo da audição. Em matéria publicada em setembro de 2006, intitulada The Hearing Aids as Fashion Statement (“Os Aparelhos Auditivos como Afirmação de Moda”), o conceituado jornal americano The New York Times sinalizou o que pode ser uma nova era no mercado de acessórios auditivos. Estimulados pelos impressionantes avanços na funcionalidade e no design dos equipamentos, os modernos usuários não têm mais receios em usar suas próteses. Ao contrário, agora fazem questão de exibi-las – com orgulho.
Galáxia de oportunidades
Diferentemente dos óculos, que já estão perfeitamente integrados e aceitos na sociedade contemporânea, os aparelhos auditivos ainda carregam consigo uma forte estigmatização. Embora ambos tenham enfrentado a mesma resistência inicial e sido igualmente imprescindíveis na vida de milhões de pessoas, suas trajetórias não poderiam ser mais diferentes. Enquanto os óculos atingiram o status de moda – eles sugerem inteligência e sabedoria, e acabaram vinculados à intelectualidade–, os aparelhos auditivos ainda são vistos com estranheza por muita gente. Com efeito, para muitos indivíduos usar as próteses equivale a colocar um sinal luminoso com os dizeres “Sou deficiente” na testa. E assim, todos saem perdendo: a pessoa com limitação auditiva, que jamais vislumbrará a galáxia de possibilidades acessível pelo equipamento; a indústria, que investe milhões em pesquisa, mas não obtém o retorno almejado; e a sociedade, já que a surdez não-tratada acaba tendo inevitáveis impactos sócio-econômicos (só na Europa, segunda a organização Hear It, o prejuízos chegaram a 226 bilhões de euros, em 2004).
Cool and Fashion
Felizmente, esta situação está mudando. Com um mercado global estimado em 500 milhões de pessoas (e que, com o aumento da expectativa de vida e da poluição sonora, cresce cada vez mais), a indústria auditiva tem trabalhado duro para simplificar o caminho do usuário até a prótese. Num mundo ainda assombrado pelo fantasma do preconceito, tem-se tentado as formas mais criativas para conferir ao equipamento uma aura fashion & cool, menos clínica e mais contemporânea. E foi na esteira desse processo que surgiu uma idéia bastante interessante, a de elevar os aparelhos auditivos à condição de acessórios de luxo. Esta tendência ganhou notoriedade com a Hearwear (Londres, 2005), uma mostra na qual foram exibidos desenhos futurísticos, como o acessório em forma de colar, brinco e até um modelo integrado em óculos, um sonho tão antigo quanto a própria prótese auditiva. Mais recentemente, durante o Salão de Nuremberg, na Alemanha, a exposição dos equipamentos em vitrines dignas de joalherias, bem como a apresentação dos mesmos em estojos que se assemelhavam em muito a porta-jóias confirmou ainda mais a tendência. É mais uma tentativa de mudar a percepção das pessoas sobre o aparelho auditivo, uma tecnologia que pode, de fato, melhorar de forma drástica a vida do usuário. “É ridículo, hoje, quando nós estamos cercados de belos designs em todas as áreas de nossas vidas, que os aparelhos auditivos tenham sido esquecidos desse jeito”, resume Henrietta Thompson, co-curadora da Mostra Hearwear.
Assistentes de Comunicação Pessoal
Realmente. Mas, ao que tudo indica, esse descaso está com os dias contados. Cientes que atualmente os usuários estão tão preocupados com o visual quanto com a performance do produto, e continuamente pressionadas pelo mercado – é preciso criar e lançar rapidamente, antes que a concorrência o faça – as empresas têm trabalhado num ritmo de inovação cada vez maior, e o resultado dessa verdadeira corrida tecnológica foi que o aparelhinho auditivo acabou por transcender a condição de mero amplificador de sons. De fato, dispositivos como bluetooth, wireless e self-learning proporcionam não só uma qualidade de som incomparável, como também permitem ao usuário possibilidades de comunicação jamais sonhadas, como conexão ao telefone celular, pc, mp3 e outros ícones da tecnologia contemporânea. Não é de se admirar que tenham surgido modelos cada vez mais surpreendentes, como o Delta, da Oticon, um marco de design dos modernos acessórios funcionais. E, para os privilegiados que não se importam em pagar alguns milhares de dólares num bom equipamento, opções é que não faltam. O novo Audéo, da Phonak, por exemplo, inova não só pelo visual de vanguarda e impressionante gama de funções, mas também por trazer consigo o inédito conceito de PCA (Assistente de Comunicação Pessoal). Como se não bastasse, a fabricante suíça também saiu na frente ao se associar à Steinway & Sons e lançar o aristocrático modelo Steinway Verve, que, claro, vem com o logotipo da mais tradicional e conceituada marca de pianos do mundo – conferindo, assim, de forma definitiva ao acessório auditivo o status de grife. Sinal dos tempos... Já o Centra Active, da Siemens, é um caso à parte. Além dos recursos de última geração (que mais parecem coisa de ficção científica), o fabricante ainda conseguiu a proeza de fazê-lo resistente à umidade, o que deverá amplificar de forma admirável não só a audição, mas a própria vida do usuário - um milagre da tecnologia. Ele segue um caminho que vai de encontro ao sonho de liberdade de milhões de pessoas, e num futuro próximo é possível que esta tecnologia culmine num aparelho auditivo totalmente à prova d’água e assim proporcione ao usuário prazeres até então negados, como praticar esportes aquáticos ou mesmo dançar com os amigos numa festa ao ar livre num dia de chuva – as possibilidades ficam mesmo por conta da nossa imaginação. Mas o prêmio “Luxo” vai mesmo para um modelo da família “M”, da dinamarquesa Widex. Folheado em ouro 24 k e cravejado de diamantes (220, para ser mais exato), este retroauricular vem com controle remoto estilizado e é a jóia da coroa da bilionária indústria de aparelhos auditivos. Preço: US$ 50.000.
Mudança de foco
Embora a evolução estético-tecnológica tenha contribuído em muito para melhorar a imagem do aparelho perante o público, a verdade é que os resultados obtidos ainda estão longe do ideal, e o problema de convencer novos pacientes a se adaptar continua a desafiar a indústria. Um estudo realizado na Alemanha pelo Oldenburger Competence Center ajuda a explicar os porquês. Por meio de entrevistas com potenciais usuários para avaliar o processo de protetização naquele país, chegou-se a um resultado alarmante: apenas 1 em cada 10 pessoas com perda auditiva acabou de fato adotando o acessório. Segundo o analista Markus Meis, que conduziu a pesquisa, o principal obstáculo foi emocional: a vergonha de se adaptar acabou pesando demais na decisão de aceitar a prótese. E isso traz à tona uma outra constatação do estudo: a ineficácia de argumentos puramente técnicos e racionais nos primeiros (e decisivos) passos do processo de adaptação. Faz sentido. De que adiantaria, por exemplo, alardear as vantagens de um automóvel super-moderno e repleto de opcionais para um indivíduo que morre de medo do trânsito? Segundo o Dr Markus, para combater o preconceito é imprescindível trabalhar a questão da auto-estima e aumentar o grau de informação das pessoas que usam o aparelho, através de palestras, campanhas de conscientização, etc. Em outras palavras, adotar uma nova abordagem: mudar o foco da prótese para o próprio usuário.
De Buzz Aldrin ao incrível Hulk
Talvez cientes disso, algumas empresas resolveram investir numa outra tática, a de explorar a imagem de celebridades que adotaram o acessório. Nos E.U.A, com efeito, várias personalidades não escondem o fato de serem adaptadas, e pessoas como Bill Clinton e Lou Ferrigno (o incrível Hulk) contribuem em muito para a popularização do equipamento na pátria do Tio Sam. Alguns acabam sendo contratados como garotos-propaganda, e um dos mais notáveis é ninguém menos que o lendário astronauta Buzz Aldrin, que já viajou o mundo como um verdadeiro embaixador do aparelho auditivo.
No Brasil, ações como a Política Nacional de Atenção à Saúde Auditiva – reconhecida pela comunidade audiológica internacional como um programa de altíssima qualidade – e a Campanha da Saúde Auditiva têm contribuído de forma decisiva não só com a atenção básica, mas também para melhorar a imagem e o grau de adoção do aparelho auditivo pela população. Sendo um país subdesenvolvido, contudo, a questão logístico-financeira acaba sendo determinante muitas vezes, já que a distância da assistência auditiva e a falta de poder aquisitivo acabam preponderando sobre qualquer outro fator envolvido na adaptação. Embora todas essas iniciativas tenham contribuído de forma inegável para aumentar o número de pessoas adaptadas, a verdade é que ainda falta muito, e certamente, como nos outros países, há um longo caminho a ser percorrido até a incorporação plena do aparelho auditivo em nossa sociedade. Embora os assuntos relacionados à saúde auditiva, no Brasil, tenham conquistado cada vez mais espaço nos meios de comunicação de massa, não há dúvida de que o potencial destes como instrumentos de mudança está sendo subutilizado, e uma das principais lacunas diz respeito ao emprego de formadores de opinião nessa empreitada – uma antiga e consagrada estratégia de marketing que, se já é aplicada com sucesso nos E.U.A, ainda é praticamente inexplorada no Brasil. De fato, as iniciativas nesse sentido ainda são tímidas, talvez porque ainda são raríssimas as celebridades brasileiras que usam – ou têm coragem de assumir publicamente – os assistentes auditivos. Não resta dúvida que há aqui um forte componente cultural, já que em nosso país a imagem do aparelhinho está longe de ser das melhores; para muitas pessoas, aliás, é um verdadeiro tabu. A expressão utilizada pelo brasileiro para se referir aos que têm dificuldades de ouvir já fala por si: deficiente auditivo. Um termo tecnicamente correto, é verdade, mas que infelizmente adquiriu uma conotação pesada, carregada de preconceito. É por isso que a imensa maioria dos usuários que têm sucesso no processo de adaptação se contenta em simplesmente levar a vida adiante, às vezes até ocultando dos outros o fato de usarem o equipamento. Mas, sendo um povo emotivo por natureza, é de se imaginar o efeito que uma personalidade respeitada e admirada – um Guga Kuerten, por exemplo – produziria na opinião pública aparecendo sistematicamente em campanhas na TV com dois acessórios nos ouvidos. Embora vagarosa, não há dúvida de que a mudança conceitual em curso no primeiro mundo irá chegar ao Brasil. É uma revolução necessária, e se espera que as pessoas já adaptadas dêem o exemplo, indicando aos que ainda estão indecisos o caminho que os conduzirá ao admirável mundo novo da audição. Alguém se habilita?
Marcas de estilo
Com os avanços cada vez maiores na audiologia, na miniaturização e no design, é fácil perceber que, em se tratando do futuro dos assistentes de comunicação pessoal, a imaginação humana será mesmo o limite. Não há dúvida, contudo, de qual caminho essa evolução irá seguir: a customização cada vez maior do equipamento, ou seja, a individualização do acessório às necessidades e expectativas específicas de cada pessoa, até ele se tornar uma autêntica marca de estilo. Cathleen Osborn, 45 anos, citada na reportagem do New York Times, ao ser questionada do porquê de ter escolhido seus modelos Delta com desenho de pele de leopardo, foi taxativa: “ Eles combinam com meu cabelo – e minha personalidade.”

5 comentários:
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